
Diante do Espelho
Olhei-me no espelho
e já não me reconheci.
Meus olhos, marejados pelas dores do passado,
refletiam alguém que, há muito, perdi.
Meu próprio reflexo já não me reconhece,
parece ter se esquecido de mim.
E, entre as sombras que me envolviam,
fui me perdendo, pouco a pouco, assim.
Vivi nas sombras,
acreditando caminhar na luz,
fugindo da verdade que me cercava,
temendo a revelação que a realidade conduz.
Agora percebo
que vivi distante de mim,
escondendo-me dos meus próprios erros,
como se fugir pudesse evitar o fim.
Por medo de errar,
fui ingênuo em minhas escolhas,
fechei os olhos para o que não queria ver
e silenciei as minhas próprias verdades.
Mas a realidade não se curva aos desejos,
nem desaparece porque insistimos em negar.
Ela rompe o silêncio, desfaz os disfarces
e, cedo ou tarde, vem nos encontrar.
Hoje, diante do espelho, compreendo:
não há sombras capazes de esconder o que é real.
Por mais que eu negue, por mais que eu resista,
a verdade sempre encontra o seu final.
E, apesar de tudo o que eu não queria,
apesar da dor que precisei sentir,
talvez seja preciso perder-me nas sombras
para, enfim, voltar a existir.
